Engenharia Emocional, por Marcelo Libeskind

Construindo sem perder a cabeça

Quando eu tinha 11 anos, meu pai, um importante arquiteto brasileiro nas décadas de 50 a 70, começou a me levar para visitar as suas obras mais importantes: uma agência bancária em Salvador, um prédio comercial em Porto Alegre, uma casa de praia em Atlântida, RS, etc. Esta experiência, somada aos estágios no escritório dele, me colocaram em contato com a construção civil de forma muito precoce.

Durante a faculdade, sempre me interessei pela área técnica, estagiando em escritórios de projetos estruturais, consultoria de fundações, elétrica, hidráulica, etc.

Com 23 anos, tive a oportunidade de construir uma casa de mil metros quadrados e, logo percebi que todos os 5 anos de faculdade de engenharia, estágios, pai arquiteto, não seriam suficientes para encarar uma obra. Consegui superar este primeiro grande desafio e várias obras se seguiram: galerias de arte, prédios, reformas de todos os tipos, clínicas, lojas e casas de alto padrão.

Com 30 anos, fui trabalhar nos EUA, aonde aprendi que para se construir direito é necessário projetar, planejar e contar com mão de obra qualificada.

Dos 34 aos 37 morei em Juquehy, uma praia então isolada no litoral norte paulista, atuando como engenheiro residente na construção de 45 casas em um condomínio de altíssimo padrão. Neste período, aprendi que, além de bagagem técnica e experiência prática, sem foco e tranquilidade, perdemos o controle da obra.

Com 38 anos, de volta em São Paulo, uma amiga me chamou para salvá-la daqueles problemas tradicionais de uma obra: custos e prazos sumindo de vista. Deu tão certo que, durante dois anos, atuei como gerenciador de obras. Todas estas eram fantásticas e pertenciam a pessoas brilhantes, mas que agiam de uma forma “absurda” quando se relacionavam com suas obras.

Depois de 35 anos na área, cheguei à conclusão que, por mais que a ENGENHARIA esteja enquadrada e seja uma forte representante das CIÊNCIAS EXATAS, a relação do cliente com o objeto da engenharia tem muito mais elementos das CIÊNCIAS HUMANAS.

Foi assim que criei a ENGENHARIA EMOCIONAL, uma metodologia de trabalho que visa encontrar um equilíbrio saudável e eficiente entre o Emocional e o Racional no processo que vai desde o projeto arquitetônico, até o produto final.

DO SONHO À REALIDADE: UM LONGO E, MUITAS VEZES, TORTUOSO CAMINHO.

Uma obra, ou reforma, sempre parte de um cliente que tem um sonho (desejo), mas, para realizá-lo, é necessária a participação de outras entidades: arquitetos, engenheiros, empreiteiros, fornecedores, etc.

Infelizmente, estas entidades não se encontram no processo para sonhar e/ou resolver os nossos problemas; para estas entidades, nossas obras são apenas obras, um ganha pão.

Além das expectativas individuais, tem um outro fator complicador neste processo: a divergência dentro da própria entidade do cliente.
Por exemplo: quando um casal, ou sócios de uma empresa, entram em conflito. Um quer maior, outro quer menor, um quer quadrado outro prefere redondo.

Os clientes tentam usar os arquitetos como juízes ou mediadores destas complicadas disputas pessoais, mas raramente obtém sucesso pois o arquiteto ou também esta envolvido emocionalmente no processo, não tem interesse de atuar como mediador, ou não tem a experiência necessária para desenvolver esta função.

Aí é que entra a ENGENHARIA EMOCIONAL: oferecendo uma “mediação” feita por um profissional experiente em arquitetura, engenharia e relações interpessoais e, principalmente, não estando emocionalmente envolvido no processo.

BRASIL: UM AMBIENTE PROPÍCIO PARA A ENGENHARIA EMOCIONAL

No Brasil, contratamos os arquitetos desprovidos de bagagem técnica para formatar nossos sonhos e, posteriormente, contratamos engenheiros desprovidos de bagagem estética para realizá-los, criando assim a receita para a ineficiência, gastos desnecessários de tempo, energia e dinheiro.

No Brasil temos CLIENTE, ARQUITETO e CONSTRUTORA atuando numa mesma obra com objetivos, valores e prioridades totalmente divergentes.

A ENGENHARIA EMOCIONAL trabalha para mudar este quadro.

Além disso, outro complicador são os fatores culturais: o brasileiro não valoriza a prestação de serviço; aqui, o que não é tangível é desvalorizado. Consequência: focamos nossas energias, quase que exclusivamente na obra (tangível) em detrimento dos projetos (prestação de serviço).

Outra característica do brasileiro é que ele não conta com o imprevisto: não faz parte do cronograma, não se fala neste assunto. Sem falar na avaliação e definição dos processos que também não são valorizados.

Somando tudo isto ao imediatismo da cultura contemporânea (sociedade de relações instantâneas – celular, internet, etc.) e à decadência da mão de obra, o sonho de se executar uma obra ou reforma pode se transformar em pesadelo: custos excessivos, soluções inapropriadas, frustrações com os resultados, atrasos inacreditáveis, etc.

ENGENHARIA EMOCIONAL: UM CONCEITO TRANSFORMADOR NO PROCESSO DA CONSTRUÇÃO CIVIL BRASILEIRA.

Todo mundo sabe que um médico não pode operar uma pessoa amada, um psicólogo não pode aconselhar um amigo, pois, em ambos os casos, existe um envolvimento emocional que fatalmente comprometerá o resultado deste trabalho.

Na construção civil, por se tratar de pedras e tijolos, as pessoas teimam em ignorar esta verdade: “QUANDO NOS ENVOLVEMOS COM OBRAS AGIMOS DE MANEIRA EMOCIONAL E COMPROMETEMOS NOSSOS OBJETIVOS”.

Precisamos da ENGENHARIA EMOCIONAL para que possamos ter uma conduta mais racional e eficiente, durante todo o processo: adequação dos nossos sonhos às nossas realidades, transformação dos sonhos em projetos e transformação dos projetos em obras concluídas.

A ENGENHARIA EMOCIONAL surge como uma possibilidade de tratar todos os fatores variáveis de uma obra de forma integrada, na busca de soluções visando a qualidade de vida e diminuição do stress, através da otimização de processos, avaliação de riscos, administração de crises e resgate de valores.

Engº Marcelo Libeskind
www.engenhariaemocional.com.br